Milhares de fãs, poucos discípulos: por que tão poucos ex-jogadores foram ao velório de Pelé?

Pesquisadores apontam diferentes razões para explicar a presença de poucos atletas em mais de 24h de homenagens. Enquanto isso milhares de torcedores vestiram as camisas do Santos, de outros clubes e da Seleção brasileira para se despedirem de Pelé

BdF – “Fui no velório desses dois aqui, meus pais, os Reis dessa terra pra mim, ninguém aqui das redes foi, fui pra chorar, orar e sofrer por saber que nunca mais iria vê-los, não pedi homenagem de ninguém,

não julguei ninguém, não dei entrevista, e pra mim não foi um show, até entendo vcs me cobrarem pelo o que representa o Pelé, que será eterno, mas ao Edson hoje, só posso fazer uma oração! Descanse em paz!”

A mensagem acima, acompanhada de uma foto, foi postada em uma rede social pelo ex-goleiro Marcos, titular da Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, após muitas críticas pela ausência dele e da maioria de seus colegas no velório do maior jogador de futebol de todos os tempos.

Outro campeão do Mundo, Cafu, que foi o capitão do Brasil na conquista na Ásia e na ocasião recebeu a taça das mãos do próprio Pelé, foi mais gentil. Em vídeo enviado ao canal SporTV, afirmou que fazia questão de estar presente, mas estava viajando a trabalho e não conseguiu antecipar o voo.

“Não vou estar com a família nesse momento tão importante aí no Brasil, mas de pensamento e de coração estamos abraçando eles. Não sei se terá missa de sétimo dia, mas faço questão de estar com eles em nome de todos os jogadores de futebol brasileiros e mundiais”, disse o ex-lateral-direito, que venceu a Copa também em 1994, nos Estados Unidos.

Com diferentes justificativas (ou sem justificativa alguma), muitos dos ex-jogadores de gerações que não dividiram o campo com o Rei do futebol não compareceram às homenagens realizadas em Santos nestas segunda e terça-feira (2 e 3 de janeiro).

Tomando por base os elencos campeões mundiais em 94 e 2002, por exemplo – as duas únicas Copas que o Brasil venceu sem Pelé em campo – o único que se fez presente foi o ex-meio-campista Mauro Silva, que estava no elenco que conquistou o título nos EUA e hoje é dirigente da Federação Paulista de Futebol. Os outros 42 atletas que fizeram parte das conquistas não compareceram.

O pesquisador Chico Brinati, que estuda a história da Seleção Brasileira e é professor de Jornalismo da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), afirma que a pequena quantidade de atletas e ex-atletas de gerações recentes presentes ao velório de Pelé não surpreende.

No caso específico dos vencedores das Copas do Mundo em 94 e 2002, Brinati aponta o fato de que o ídolo, depois da aposentadoria, se tornou comentarista de futebol. E, muitas vezes, teve postura bastante crítica.

“Mesmo ele sendo o maior de todos os jogadores, o maior atleta do esporte, ele teve a oportunidade de ficar em evidência ao longo de vários anos, de décadas. E aí nessa evidência ele passa para ‘o outro lado’, vamos dizer assim. Ele passa a ser comentarista, crítico dos atletas. E ele não media as palavras. Então acredito que tenha ficado um pouco de mágoa desses atletas por essas críticas”, afirma.

Uma das críticas mais contundentes a respeito das ausências no velório veio do ex-jogador e apresentador Neto, da Band. Sem citar nomes, ele afirmou em entrevista ao UOL que “talvez as pessoas só vão em lugares onde elas ganham cachê”.

Brinati evitou levar as críticas a esse ponto, mas afirma que faltou sensibilidade. Ele lembrou do evento promovido pela Fifa durante a Copa do Mundo do Catar para homenagear Pelé, que na época estava internado em São Paulo. Apenas um ex-jogador compareceu: o argentino Javier Zanetti.

Por outro lado, o professor lembrou que todo o mundo do futebol se manifestou nas redes sociais logo após a confirmação da morte do ídolo, no último dia 29 de dezembro. Ele avalia que ainda é cedo para entender uma possível nova dinâmica das relações, especialmente após a pandemia. Em algum momento poderemos entender que uma homenagem virtual tem apelo parecido a uma visita a um velório, por exemplo.

“Às vezes as pessoas preferem não ir a um funeral, a uma despedida, mas fazer uma postagem na rede social, fazer essa reverência de uma maneira que chegue e alcance mais pessoas, né? Ao mesmo tempo, fica nessa contradição de que você ter a tecnologia, a internet de um lado, mas de outro lado, o lado físico, de contato físico com a família”, pondera.

Para o também pesquisador Filipe Mostaro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), todos os jogadores brasileiros tinham que estar presentes, se fosse possível. Especialmente os que vestiram a camisa da Seleção e venceram uma Copa do Mundo.

“A gente sabe que o problema não é financeiro, de nenhum deles, de pegar um voo e ir pra Santos. A questão passa muito pelo que o futebol se tornou nos últimos anos, quando o capitalismo começa a adentrar no esporte de uma maneira muito forte”, aponta.

Mostaro estudou a cobertura de imprensa durante as Copas do Mundo desde o início da história do torneio, em 1930, e identificou, nas últimas décadas, um aumento do destaque dado aos atletas mais midiáticos, que conquistaram mais patrocinadores. Isso, para ele, tem influência na forma como os próprios atletas veem o esporte.

“Nesse individualismo, essa ideia de cada um por si, essas pessoas [os jogadores] passam a não entender o que é a memória do futebol brasileiro, passam a achar que não fazem parte daquilo, que eles vêm de um mundo em que é tudo muito melhor, em que a tradição, a memória, todos aqueles antepassados, para esses caras isso não tem a menor importância”, critica.

O professor lembra que o estado de saúde de Pelé era frágil há algum tempo, com internações frequentes, até a derradeira passagem pelo Hospital Albert Einstein, onde ele morreu em São Paulo. Para Mostaro, a postura dos ex-atletas reflete questões presentes em toda a sociedade.

“É um somatório de muita coisa ruim que tem na sociedade brasileira. O que nos espanta é que a imensa maioria desses jogadores saiu de uma origem muito pobre, muito humilde, e deveria reverenciar um cara como Pelé ou como Garrincha. Eles deveriam buscar essa memória, uma transformação. Mas isso só indica que a classe social é uma coisa momentânea. A partir do momento que esses caras ficam ricos, eles acham que estão num patamar acima, num mundo completamente diferenciado”, lamenta.

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