Racismo, fome e nova governança mundial: leia trechos de entrevista de Lula à revista Time

Lula falou com exclusividade em entrevista publicada nesta quarta-feira pela revista “Times” dos Estados Unidos. Ex-presidente é pré-candidato à Presidência do Brasil pelo PT pela sexta vez na carreira, na sua saída bateu recorde de aprovação e transformou país em uma das grandes potencias econômicas da América do Sul.

BdF – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu na capa da nova edição da revista Time, uma das mais conhecidas revistas de notícias semanais do mundo, publicada nos Estados Unidos. A peça foi divulgada, na manhã desta quarta-feira (4), com a manchete O segundo ato de Lula.

O petista concedeu uma entrevista à revista, que o define como “maior líder popular do país” e destacou as chances de que Lula vença a eleição pelo Palácio do Planalto. Na entrevista, o ex-presidente minimiza um suposto temor do mercado à sua volta à Presidência. Clique aqui para ler a entrevista completa.

O Brasil de Fato reproduz, abaixo, trechos traduzidos da entrevista do ex-presidente. Neles, Lula debate temas como racismo, escravidão e economia. O petista disse ser inaceitável o extermínio de jovens negros e declarou que o foco de um eventual terceiro mandato seu será acabar com a fome no país.

Leia trechos da entrevista:

Nova governança mundial

É urgente e é preciso a gente criar uma nova governança mundial. A ONU de hoje não representa mais nada. A ONU de hoje não é levada a sério pelos governantes. Porque cada um toma decisão sem respeitar a ONU. O Putin invadiu a Ucrânia de forma unilateral, sem consultar a ONU. Os Estados Unidos costumam invadir os países sem conversar com ninguém e sem respeitar o Conselho de Segurança. Então é preciso que a gente reconstrua a ONU, coloque mais países, envolva mais pessoas. Se a gente fizer isso, a gente começa a melhorar o mundo.

Questão racial e escravidão

Olha, eu li muito sobre a escravidão quando eu estava preso e eu, às vezes, tenho dificuldade de compreender o que foram 350 anos de escravidão. E eu tenho mais dificuldade de compreender que a escravidão, ela está dentro da cabeça das pessoas, o preconceito está dentro da cabeça das pessoas. Aqui no Brasil, na periferia brasileira, milhares de jovens são mortos quase todo mês, todo ano. Então não é possível isso continuar.

Quando eu estava na Presidência nós criamos uma lei para que a história africana fosse contada na escola brasileira. Para que a gente aprendesse sobre a história africana para não ver os africanos como cidadãos inferiores. Então nós precisamos começar essa educação dentro de casa, na escola. E o Bolsonaro despertou o ódio, despertou o preconceito. Aí tem outros presidentes também na Europa, na Hungria, [que fazem o mesmo]; está aparecendo muito fascista, muito nazista no mundo.

Dificuldade para governar?

O futebol americano tem um jogador, que aliás é casado com uma brasileira que é modelo, e que é o melhor jogador do mundo há muito tempo. A cada jogo que ele faz, a torcida fica exigindo que ele jogue melhor do que no jogo anterior. No caso da presidência é a mesma coisa. Só tem sentido eu estar candidato à presidência da República porque eu acredito que eu sou capaz de fazer mais e fazer melhor do que eu já fiz.

Eu tenho clareza de que eu posso resolver os problemas [do Brasil]. Eu tenho a certeza de que esses problemas só serão resolvidos quando os pobres estiverem participando da economia, quando os pobres estiverem participando do orçamento, quando os pobres estiverem trabalhando, quando os pobres estiverem comendo. Isso só é possível se você tiver um governo que tenha compromisso com as pessoas mais pobres.

Eu sou o único candidato com quem as pessoas não deveriam ter essa preocupação, porque eu já fui presidente duas vezes. E a gente não discute política econômica antes de ganhar as eleições. Primeiro você precisa ganhar para depois saber com quem você vai compor e o que você vai fazer. Quem tiver dúvida sobre mim olhe o que aconteceu nesse país quando eu fui presidente da República: o crescimento do mercado. O Brasil tinha dois IPOs. No meu governo fizemos 250 IPOs [ofertas públicas de empresas em bolsas de valores]. O Brasil devia 30 bilhões, o Brasil passou a ser credor do FMI, porque emprestamos 15 bilhões [de dólares]. O Brasil não tinha um dólar de reserva internacional, o Brasil tem hoje 370 bilhões de dólares de reserva internacional. […] Então as pessoas precisam ter em conta o seguinte: ao invés de perguntar o que é que eu vou fazer, olhe o que eu fiz.

“Volta” de Lula à política

Eu na verdade nunca desisti da política. A política está em cada célula minha, a política está no meu sangue, está na minha cabeça. Porque o problema não é a política simplesmente, o problema é a causa que te leva à política. E eu tenho uma causa.

Quando deixei a Presidência em 2010, efetivamente eu não pensava mais em ser candidato à presidência da República. Entretanto, o que eu estou vendo, doze anos depois, é que tudo aquilo que foi política para beneficiar o povo pobre— todas as políticas de inclusão social, o que nós fizemos para melhorar a qualidade das universidades, das escolas técnicas, melhorar a qualidade do salário, melhorar a qualidade do emprego—, tudo isso foi destruído, desmontado. Porque as pessoas que começaram a ocupar o governo depois que deram o golpe na presidenta Dilma [Rousseff] eram pessoas que tinham o objetivo de destruir todas as conquistas que o povo brasileiro tinha obtido desde 1943.

Há uma expectativa de que eu volte a presidir o país porque as pessoas têm boas lembranças do tempo em que eu fui presidente. As pessoas trabalhavam, as pessoas tinham aumento de salário, os reajustes salariais eram acima da inflação. Então eu penso que as pessoas têm saudades disso e as pessoas querem isso melhorado.

Leia a capa da revista:

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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