Economia mundial entra em parafuso e contrasta com a China

A combinação dos efeitos da crise econômica global, desde o seu pico mais agudo de 2007-2008, com os da pandemia de Covid-19, constitui uma das discussões mais inflamadas que o mundo terá de travar no futuro próximo. Os próprios organismos do clube dos países ricos estão se posicionando a respeito, reconhecendo o potencial destrutivo desses efeitos.

por Osvaldo Bertolino

Altas autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial manifestaram apelos para que os ricos ajudem os pobres a enfrentarem a situação. Os alertas mostram que as dívidas públicas e privadas dispararam em um cenário de taxas de juros baixas. É um quebra-cabeça difícil para as instituições sediadas em Washington, que sempre exigiram arrocho fiscal.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, e o presidente do Banco Mundial, David Malpass, disseram que muitos países não se sentem confiantes em uma recuperação econômica e pediram aos maiores credores – China e grandes instituições privados em particular – a fazerem mais para aliviar a crise de endividamento enfrentada pelos países mais vulneráveis.

Kristalina Georgieva asseverou que “nove meses após o início de uma pandemia e ainda estamos lidando com a escuridão de uma crise que ceifou mais de um milhão de vidas e que colocou a economia em marcha à ré, causando desemprego, aumentando a pobreza e os riscos de uma geração perdida ‘em países de baixa renda”. “Estou muito preocupada que o apoio aos trabalhadores e empresas seja retirado prematuramente, porque isso pode causar uma onda de falências e um aumento maciço do desemprego”, alertou.

Georgieva prevê uma breve recuperação em 2021, basicamente pela injeção pelos governos de US$ 12 trilhões (cerca de R$ 67,4 trilhões) nas economias ao redor do mundo, mas as perdas de crescimento nos próximos cinco anos são estimadas em cerca de S$ 28 trilhões (R$ 157 trilhões). Com um aumento da pandemia e nenhuma vacina de alcance global à vista, Georgieva alertou que todos os países enfrentam um desafio para sair da crise que será “difícil, desigual, incerto e sujeito a contratempos”.

Pressão sobre a China

David Malpass, do Banco Mundial, pediu alívio da dívida para os países pobres. O G20 concordou e prometeu a suspensão do serviço da dívida para os 43 países mais pobres do mundo, o que representa cerca de US$ 5 bilhões (R$ 28 bilhões) de obrigações até o final do ano, bem abaixo do esperado, de até US$ 11 bilhões (R$ 61,7 bilhões). A promessa é de uma extensão de seis meses desta iniciativa, mas Malpass cobrou rapidez.

A pressão recai sobre a China, que segundo o Banco Mundial consolidou amplamente sua posição como o maior credor dos países pobres nos últimos anos, bem à frente do Japão. A participação do gigante asiático no passivo total devido aos países do G20 por outras nações aumentou de 45% em 2013 para 63% no final de 2019, disse o Banco Mundial em um comunicado.

A gravidade da situação pode ser medida por um novo estudo divulgado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU), indicando que uma refeição básica está muito além do alcance de milhões de pessoas em 2020. A pesquisa revela que a pandemia agrava a situação causada por conflitos, mudanças climáticas e problemas econômicos.

O relatório intitulado “Custos de um Prato de Alimentos 2020” afirma que os países onde uma refeição simples, como arroz com feijão, custa mais, quando comparada com o rendimento das pessoas. O diretor executivo do PMA, David Beasley, disse em comunicado que “são as pessoas mais vulneráveis ​​que sentem os piores efeitos.” Segundo ele, as vidas “dessas pessoas já estavam no limite antes da pandemia de coronavírus, e agora sua situação é muito pior, com a pandemia ameaçando uma catástrofe humanitária.”

Dívida pública dispara

A crise chega forte também no centro do sistema das economias mais ricas, os Estados Unidos, que registram um crescimento considerável no déficit orçamentário, já superior a US$ 3,1 trilhões em 2020. É o pior resultado do país, contra cerca de US$ 1 trilhão no ano passado, que já representava um nível elevado. Até então, o mais alto déficit tinha ocorrido em 2009, quando chegou a US$ 1,4 trilhão.

O salto contabiliza o ano fiscal de 2020, que inclui vários meses antes da pandemia. São dados que refletem um grande aumento nos gastos para enfrentar as consequências econômicas. O governo gastou US$ 6,552 trilhões, acima dos US$ 4,447 trilhões de um ano atrás, de acordo com os dados divulgados em conjunto com o Departamento do Tesouro. A arrecadação somou US$ 3.420 trilhões em receitas, uma ligeira redução em relação a 2019.

Há ainda o aumento substancial da dívida pública norte-americana, que o presidente Donald Trump prometeu eliminar em oito anos, que saltou de U$ 14,4 trilhões para US$ 21 trilhões neste governo. E a discussão na Câmara dos Deputados sobre outra rodada de alívio econômico, que poderia incluir outros cerca de US$ 2 trilhões em ajuda, o que poderá aumentar ainda mais o déficit orçamentário.

Benefício federal

Um amplo espectro de economistas – inclusive o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome H. Powell – considera a assistência fundamental para evitar que a recuperação econômica diminua e impedir que milhões de caiam na pobreza extrema. As empresas aceleraram o ritmo de demissões nas últimas semanas, principalmente em empresas relacionadas a viagens. A pressão dos conservadores contra a medida está reavivando o cenário das ferozes batalhas orçamentárias que caracterizaram grande parte do governo do ex-presidente Barak Obama.

Em março e abril, o Congresso aprovou cerca de US$ 3 trilhões em programas de gastos em resposta à pandemia. Isso incluiu centenas de bilhões de dólares em ajuda para desempregados e pequenas empresas, bem como cheques de estímulo de US$ 1.200 para milhões de norte-americanos. A economia entrou em forte recessão no início deste ano, quando muitas empresas fecharam e enviaram trabalhadores para casa por causa do surto do vírus.

De acordo com o jornal The Washington Post, economistas e legisladores de ambos os lados do corredor político norte-americano – democratas e republicanos – pedem mais gastos do governo. A taxa de desemprego caiu de 14,7% em abril para 7,9% em setembro, mas dezenas de milhões de norte-americanos continuam desempregados e os pedidos de subsídio de desemprego aumentaram. Um benefício federal para milhões de desempregados expirou, e os economistas alertam que a recuperação pode ser estagnada ou revertida com o encerramento prematuro dos programas de ajuda.

Cenário diferente na China

A China apresenta um cenário diferente. Além de se tornar a maior economia do mundo, de acordo com os parâmetros do FMI, que em relatório mostra que a economia chinesa é um sexto maior do que a dos Estados Unidos (U$ 24,2 trilhões contra U$ 20,8 trilhões). Em 2020, a China será a única grande economia que registrará crescimento. Segundo a agência de notícias chinesa Xinhua, o país é capaz de alimentar 20% da população mundial, o que é uma contribuição significativa, conforme avaliação de Zhang Wufeng, chefe da Administração Nacional de Alimentos e Reservas Estratégicas.

A China conta com 9% das terras aráveis do mundo e 6% dos recursos de água doce e se tornou uma força positiva na salvaguarda da segurança global de alimentos, conforme registrou o país na Organização das Nações Unidas (ONU) no Dia Mundial da Alimentação, que caiu na sexta-feira deste ano. Diante da pandemia, o governo chinês adotou uma série de políticas para estabilizar a produção de alimentos e garantir o fornecimento, o que garantiu preços estáveis no mercado, de acordo com Marielza Oliveira, representante da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (ONU) na China.

Com: Vermelho

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